Preço de referência atinge maior nível desde 2022 em meio a interrupções no Oriente Médio, estoques baixos e preocupação com o inverno
Por Alex Oliveira — Informativa PE

Gás europeu chega a €100 por MWh e reacende temor de nova crise energética
O preço de referência do gás natural na Europa voltou a atingir um nível que não era visto desde a crise energética de 2022.
Nesta quarta-feira, 28 de outubro, o contrato de gás natural no hub holandês TTF chegou brevemente a €100 por megawatt-hora (MWh), avançando cerca de 4% em relação à sessão anterior. O patamar não era registrado desde dezembro de 2022.
A alta ocorre num momento particularmente delicado para o continente.
A Europa entra no período de maior consumo de energia com estoques abaixo do normal, menor disponibilidade de gás natural liquefeito e uma escalada no Oriente Médio que já afeta rotas marítimas e exportações de energia.
O resultado é uma combinação perigosa: menos oferta disponível justamente quando a demanda tende a aumentar.
Por que o gás europeu chegou a €100 por MWh?
O principal fator é a redução da oferta global de gás natural liquefeito, o LNG.
O conflito no Oriente Médio passou a afetar embarques e rotas utilizadas por grandes produtores, especialmente cargas originadas no Golfo.
Isso obriga compradores europeus a disputar volumes disponíveis com países asiáticos, elevando os preços no mercado internacional.
Segundo a Agência da União Europeia para a Cooperação dos Reguladores de Energia, a ACER, as importações europeias de LNG ficaram 14% menores no verão de 2026 e praticamente não houve volumes significativos do Catar chegando à União Europeia durante o período analisado.
Essa mudança é especialmente importante porque a Europa se tornou muito mais dependente do LNG depois da redução drástica do gás russo transportado por gasodutos.
Estoques estão abaixo do normal antes do inverno
Outro ponto de preocupação é o nível dos reservatórios europeus.
Em 21 de outubro, os estoques de gás da União Europeia estavam em aproximadamente 75% da capacidade, segundo a ACER. Esse nível está abaixo da média histórica para esta época do ano.
Na Alemanha, maior economia do bloco, os reservatórios estavam em cerca de 60%, também abaixo dos níveis observados no ano anterior.
Isso reduz a margem de segurança caso o inverno seja rigoroso.
Se as temperaturas caírem de forma intensa e prolongada, a demanda por aquecimento poderá crescer rapidamente e acelerar a retirada de gás dos estoques.
O risco de uma repetição de 2022
Apesar do impacto, a Europa ainda está distante do auge da crise energética de 2022.
Em agosto daquele ano, o TTF chegou a aproximadamente €340 por MWh, mais de três vezes o nível atual.
Naquela época, a invasão da Ucrânia pela Rússia e o corte de grande parte do fornecimento russo provocaram uma crise sem precedentes no mercado europeu.
Hoje, a situação é diferente.
A Europa ampliou terminais de LNG, diversificou fornecedores e reduziu parte da dependência da Rússia.
Mas isso também criou uma nova vulnerabilidade.
Em vez de depender principalmente de gasodutos, o continente passou a depender mais do mercado global de LNG — um mercado onde cargas podem ser redirecionadas para quem paga mais.
Oriente Médio volta ao centro da crise energética
A nova alta mostra como o conflito no Oriente Médio passou a ter influência direta no mercado energético europeu.
Disrupções no Golfo afetam exportadores importantes e pressionam rotas marítimas utilizadas para transportar gás.
O estreito de Hormuz, por exemplo, é uma passagem estratégica para o comércio mundial de energia.
Quando surgem riscos de ataques, bloqueios ou interrupções, o mercado adiciona imediatamente um prêmio de risco aos preços.
Esse efeito já aparece nas contas europeias.
A ACER estima que o conflito no Oriente Médio tenha acrescentado entre €18 bilhões e €33 bilhões à conta de importação de gás da Europa para a mesma quantidade de combustível.
Famílias podem sentir o impacto nas contas de energia
O aumento do gás no atacado não chega imediatamente à conta de todos os consumidores.
Em muitos países, contratos de energia possuem preços fixados com antecedência ou mecanismos regulatórios que retardam o repasse.
Mas, se o patamar elevado persistir, o custo tende a aparecer nas contas de gás e eletricidade nos meses seguintes.
Isso ocorre porque usinas movidas a gás muitas vezes definem o preço marginal da eletricidade durante períodos de alta demanda.
Ou seja, gás mais caro também pode significar eletricidade mais cara.
A Reuters aponta que boa parte do impacto para consumidores domésticos deverá aparecer principalmente ao longo de 2027, caso os preços permaneçam elevados.
Indústria sente primeiro
Para a indústria, o efeito é mais rápido.
Setores como:
– fertilizantes;
– produtos químicos;
– aço;
– vidro;
– cerâmica;
– papel;
– alimentos;
– e outras atividades intensivas em energia
utilizam gás diretamente como combustível ou matéria-prima.
Algumas empresas europeias já reduziram produção devido ao custo elevado do gás.
Isso cria um problema maior para a economia europeia.
Quando a energia fica cara, produtos industriais perdem competitividade diante de concorrentes de regiões onde gás e eletricidade custam menos.
Alemanha é uma das mais expostas
A Alemanha merece atenção especial.
O país possui uma das maiores bases industriais da Europa e durante décadas construiu parte de sua competitividade com acesso a gás russo relativamente barato.
Depois da guerra na Ucrânia, esse modelo foi profundamente alterado.
Com os estoques alemães em torno de 60% e preços elevados no mercado europeu, indústrias químicas, metalúrgicas e de manufatura enfrentam custos adicionais.
Isso pode afetar investimento, produção e emprego se os preços permanecerem elevados por muito tempo.
Europa está mais preparada do que em 2022
Apesar dos riscos, a situação atual não é exatamente igual àquela vivida quatro anos atrás.
A União Europeia construiu novos terminais de importação de LNG.
Países firmaram contratos com fornecedores como Estados Unidos e Noruega.
O consumo de gás também foi reduzido em diversos setores.
Além disso, o bloco criou mecanismos de armazenamento e coordenação que não existiam com a mesma intensidade antes da crise de 2022.
Por isso, analistas consideram menos provável uma repetição exata do choque de quatro anos atrás.
Mas isso não significa preços baixos.
O problema pode durar além deste inverno
Analistas e empresas do setor já alertam que o gás caro pode persistir mesmo se o conflito no Oriente Médio diminuir.
A razão é simples.
A Europa precisará repor os estoques depois do inverno.
Se os reservatórios terminarem a estação em níveis baixos, o continente entrará novamente no mercado internacional para comprar grandes volumes de LNG durante a primavera e o verão.
Isso pode manter os preços elevados por boa parte de 2027.
Ou seja: mesmo um inverno relativamente ameno não eliminaria imediatamente o problema.
O consumidor brasileiro pode ser afetado?
O impacto direto sobre o Brasil é menor do que na Europa, mas não inexistente.
Quando a Europa paga mais por LNG, aumenta a competição global por cargas.
Países importadores de gás podem precisar oferecer preços maiores para garantir fornecimento.
Além disso, energia mais cara na Europa pode elevar custos de produtos industriais, fertilizantes, químicos e outros bens comercializados internacionalmente.
O efeito pode aparecer indiretamente em cadeias de produção e preços globais.
Uma nova crise energética está começando?
Ainda é cedo para afirmar isso.
O nível de €100/MWh é preocupante, mas continua bem abaixo do pico de 2022.
A diferença está no contexto.
A Europa possui mais infraestrutura para importar LNG, fornecedores mais diversificados e mecanismos de armazenamento mais robustos.
Por outro lado, entra no inverno com estoques menores e enfrenta um mercado global mais disputado.
Se o inverno for rigoroso e as interrupções no Oriente Médio persistirem, a pressão sobre preços pode aumentar novamente.
Se as temperaturas forem amenas e os fluxos de LNG melhorarem, o mercado pode aliviar.
O verdadeiro teste começa agora
A chegada do gás europeu a €100 por MWh funciona como um alerta.
Não significa que a Europa esteja novamente à beira de um colapso energético como em 2022.
Mas mostra que o continente ainda permanece vulnerável a choques externos.
A dependência do gás russo diminuiu.
Em seu lugar, cresceu a dependência do mercado global de LNG.
E, nesse mercado, guerras, rotas marítimas, clima e competição internacional podem rapidamente transformar uma preocupação geopolítica em uma conta mais cara de energia.
Com o inverno começando e os estoques abaixo do normal, as próximas semanas serão decisivas para saber se os €100 por MWh foram apenas um pico temporário — ou o início de uma nova fase de energia cara na Europa.
Fontes: Reuters, ACER — Agência da União Europeia para a Cooperação dos Reguladores de Energia — e dados do mercado TTF divulgados em 28 de outubro de 2026.
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