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Praias do Recife: a nova orla afastou o recifense?

Praias do Recife: João Campos modernizou a orla, mas afastou o recifense?

Autor: Alex Oliveira
Informativa PE  13 de setembro de 2026

A requalificação ampliou espaços de convivência e mudou o visual de Boa Viagem e do Pina, mas a retirada de vagas, o aperto percebido na via, as críticas ao acabamento e o medo dos tubarões levantam uma pergunta: para quem ficou a nova orla?

Nota editorial: Este é um artigo de opinião. As avaliações e conclusões expressam a visão do autor; os dados objetivos estão acompanhados das respectivas fontes.

Praias do Recife
A requalificação mudou a paisagem da orla, mas abriu debate sobre acesso, mobilidade, acabamento e segurança.

Praias do Recife: uma obra bonita nas imagens, mas funcional para quem?

Houve um tempo em que visitar as praias do Recife era um programa simples, acessível e presente na rotina das famílias. Colocava cadeiras, guarda-sol e comida no carro, seguia para Boa Viagem ou para o Pina e passava o domingo diante do mar. A orla era ponto de encontro, lazer popular e parte da memória afetiva da cidade. Quem viveu os anos 1970, 1980 e o começo dos anos 1990 provavelmente se lembra de uma praia mais ligada à rotina do recifense — não apenas como cenário para caminhada, fotografia ou propaganda institucional, mas como lugar para permanecer.

Boa Viagem nasceu muito antes dos prédios que hoje formam seu paredão. A região foi povoado de pescadores, tornou-se área de veraneio e ganhou impulso urbano com a Avenida Boa Viagem, inaugurada há cerca de um século. Os edifícios Holiday, Acaiaca e Califórnia, erguidos entre o fim dos anos 1950 e o início dos 1960, simbolizaram a passagem das antigas casas de veraneio para uma ocupação residencial verticalizada. A praia mudou, a cidade cresceu, mas o mar continuou sendo um dos grandes patrimônios do Recife.

É justamente por isso que qualquer intervenção na orla precisa ser julgada não apenas pela beleza das imagens, mas pelo uso real que a população consegue fazer do espaço.

Uma obra bonita nas imagens, mas funcional para quem?

Na gestão do prefeito João Campos, o Projeto Orla Parque foi apresentado como uma requalificação dos 11 quilômetros de orla entre Brasília Teimosa, Pina e Boa Viagem, com investimento municipal anunciado de R$ 112 milhões. A proposta inclui ampliação do calçadão, áreas de esporte e convivência, paisagismo, acessibilidade e recuperação de equipamentos.

São objetivos positivos. Uma orla mais caminhável, acessível e arborizada é desejável. O problema começa quando a modernização parece ignorar parte da vida prática de quem chega à praia.

Para ampliar o passeio, o projeto previu a eliminação das vagas de estacionamento existentes no lado do mar da Avenida Boa Viagem. Não se trata, portanto, de uma impressão ou de um boato: a retirada foi divulgada desde a apresentação da intervenção. O resultado pode agradar a quem mora perto, vai caminhando ou utiliza bicicleta, mas pesa sobre famílias que vivem em bairros distantes, pessoas idosas, pessoas com deficiência, trabalhadores com equipamentos e pais que levam crianças.

É fácil dizer que todos deveriam usar transporte público. Difícil é ignorar que o Recife ainda não oferece, para todas as regiões e em todos os horários, um sistema confortável, seguro e previsível capaz de substituir o carro em programas familiares. Retirar vagas antes de entregar alternativas suficientes não democratiza a praia; em determinados casos, torna seu acesso mais seletivo.

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A retirada das vagas mudou a forma como parte da população consegue chegar às praias do Recife, principalmente famílias que moram longe da orla.

A circulação também passou a provocar incômodo. Motoristas relatam sensação de faixas mais apertadas e menos espaço para manobrar, especialmente onde obras, embarque, desembarque e busca por estacionamento se encontram. Sem uma medição técnica que comprove redução permanente da largura da pista, é mais correto tratar isso como uma percepção recorrente dos usuários — mas uma percepção que a Prefeitura não deveria desprezar.

Falar em acesso democrático às praias do Recife exige considerar tanto pedestres e ciclistas quanto passageiros do transporte público, idosos, pessoas com deficiência e famílias que dependem do carro.

Também existem críticas ao calçamento e ao acabamento de alguns trechos. Uma obra desse porte não pode ser avaliada apenas no dia da inauguração. Piso irregular, remendos, drenagem deficiente, peças danificadas ou execução abaixo do esperado precisam ser documentados, fiscalizados e corrigidos. Se o dinheiro é público, o padrão de qualidade também deve ser público e verificável.

Praias do Recife e o medo que afastou o banhista

Há ainda uma ferida muito mais antiga e profunda: os incidentes com tubarões. Desde 1992, quando começou a contagem oficial, Pernambuco registrou 84 ocorrências até setembro de 2026; 70 delas aconteceram na Região Metropolitana. Em 2026, novos casos graves recolocaram o medo no centro do debate.

O monitoramento científico no litoral metropolitano foi retomado apenas em setembro de 2026, depois de 11 anos de interrupção. O projeto Ecotuba, coordenado pela Universidade Federal Rural de Pernambuco, terá duração prevista de 24 meses e pretende marcar até 50 animais. É uma iniciativa necessária, mas sua própria retomada expõe uma pergunta desconfortável:

“como uma das praias urbanas mais conhecidas do Brasil passou tanto tempo sem monitoramento científico contínuo diante de um problema tão grave?”

Não existe solução séria baseada em promessas fáceis. Tubarões fazem parte do ecossistema marinho, e segurança exige ciência, educação, sinalização, fiscalização, salvamento e informação clara sobre maré, área e condições de risco. O que não é aceitável é acostumar a população à ideia de que contemplar o mar à distância é o máximo que a principal praia do Recife pode oferecer.

Recuperar a relação da população com as praias do Recife também depende de políticas permanentes de monitoramento, prevenção e educação ambiental.

As praias do Recife ficaram mais bonitas — mas também ficaram mais acessíveis?

A nova orla pode render vídeos bonitos, pistas de caminhada e espaços esportivos. Isso tem valor e deve ser reconhecido. Mas uma gestão pública não pode confundir cenário renovado com problema resolvido.

João Campos precisa responder, com dados e não apenas com publicidade, quantas vagas foram retiradas, quais alternativas foram criadas, como o impacto no trânsito está sendo medido, quantos defeitos de execução foram registrados e qual é o cronograma de correções. Também cabe ao Governo de Pernambuco explicar como garantirá continuidade ao monitoramento dos tubarões depois de tantos anos de interrupção.

A nostalgia não significa desejar a volta de uma cidade sem ciclovias, acessibilidade ou espaços de convivência. Significa lembrar que a praia já foi mais espontânea, mais simples e mais próxima da vida cotidiana das famílias. Modernizar deveria ampliar essa relação, não substituí-la por uma orla bonita para observar, difícil para chegar e perigosa para entrar no mar.

Portanto deixo uma provocação:

“A gestão João Campos devolveu a orla ao recifense ou construiu um grande cartão-postal que parte do recifense encontra cada vez mais dificuldade para usar?

O Recife merece uma orla bonita. Mas merece, sobretudo, uma praia acessível, segura, bem executada e verdadeiramente pública. Valorizar verdadeiramente as praias do Recife significa garantir beleza, segurança, mobilidade, conservação e acesso para todos.

 

Fontes consultadas para esta matéria

  1. Prefeitura do Recife — apresentação e etapas do Projeto Orla Parque: https://www2.recife.pe.gov.br/
  2. Jornal do Commercio — projeto prevê eliminação das vagas no lado do mar: https://jc.ne10.uol.com.br/pernambuco/2023/09/15590968-nova-orla-de-boa-viagem-projeto-tera-impacto-na-mobilidade-da-zona-sul-do-recife.html
  3. Folha de Pernambuco — ampliação do passeio e retirada de vagas: https://www.folhape.com.br/noticias/projeto-da-prefeitura-do-recife-preve-revitalizacao-da-orla/270980/
  4. Folha de S.Paulo, com dados do Cemit — retomada do monitoramento e número de incidentes: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/09/monitoramento-de-tubaroes-no-litoral-do-grande-recife-e-retomado-apos-11-anos.shtml
  5. Pesquisa histórica sobre verticalização de Boa Viagem: https://www.redalyc.org/

 

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