Dossiê Lula: entre a ascensão popular, o legado social e as perguntas que nunca desapareceram
Escolhido pelo PT para disputar um quarto mandato presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva chega à eleição de 2026 carregando uma combinação rara: realizações sociais reconhecidas, enorme capacidade eleitoral, forte rejeição e uma história judicial que terminou sem condenações válidas — mas também sem um julgamento definitivo de mérito que encerrasse todas as dúvidas.
Dossiê atualizado em 6 de agosto de 2026.
Entre os presidenciáveis de 2026, Luiz Inácio Lula da Silva chega ao debate eleitoral com uma longa trajetória política, realizações reconhecidas, controvérsias e novos desafios.
Do sertão pernambucano ao Palácio do Planalto Lula é um dos presidenciáveis 2026
Luiz Inácio Lula da Silva nasceu em 27 de outubro de 1945, em Caetés, localidade que na época pertencia a Garanhuns, no Agreste de Pernambuco. Ainda criança, mudou-se com a família para São Paulo em busca de melhores condições de vida.
Trabalhou como vendedor ambulante, engraxate e operário. Fez um curso profissionalizante de torneiro mecânico no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, o Senai. Sua escolaridade formal é o ensino fundamental; Lula não possui graduação universitária concluída. Os títulos honoríficos recebidos de universidades brasileiras e estrangeiras são reconhecimentos acadêmicos, mas não equivalem a cursos superiores regulares.
Sua entrada no movimento sindical ocorreu no final da década de 1960. Em 1975, tornou-se presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. As greves do ABC Paulista, no final dos anos 1970, transformaram o operário pernambucano em uma liderança nacional.
Em 1980, Lula participou da fundação do Partido dos Trabalhadores. Foi eleito deputado federal constituinte em 1986, disputou a Presidência em 1989, 1994 e 1998 e finalmente venceu em 2002. Foi reeleito em 2006, voltou ao poder em 2022 e agora pretende conquistar um quarto mandato não consecutivo.
Em 2 de agosto de 2026, o PT oficializou sua candidatura à reeleição, mantendo Geraldo Alckmin, do PSB, como vice. A convenção reuniu sete partidos do campo progressista em torno da chapa. A oficialização foi confirmada pelo PT, enquanto a situação formal do registro deve ser acompanhada no DivulgaCandContas do TSE.
Uma trajetória que se confunde com a política brasileira
Poucos políticos brasileiros dividiram tanto a opinião pública durante tanto tempo. Para seus apoiadores, Lula é o operário que chegou à Presidência e colocou os pobres no orçamento público. Para seus adversários, é o líder de um projeto de poder que conviveu com corrupção, fisiologismo e alianças contraditórias.
As duas descrições simplificam uma história muito mais complexa.
Lula liderou um partido nascido do sindicalismo, de movimentos sociais, comunidades religiosas e intelectuais de esquerda. Entretanto, para governar, aproximou-se de grupos que o PT anteriormente criticava. Formou coalizões com partidos de centro e de direita, distribuiu ministérios entre aliados e adotou uma política econômica mais moderada do que indicava o discurso histórico do partido.
Essa transformação pode ser vista como pragmatismo necessário para governar um país fragmentado. Também pode ser interpretada como o momento em que a promessa de fazer política de maneira diferente começou a ser substituída pelas velhas práticas de Brasília.
A pergunta permanece: “Lula mudou o sistema político ou foi o sistema político que mudou Lula?”
O legado social: fatos que ajudam a explicar sua força
Durante os primeiros governos Lula, o Brasil atravessou um período de crescimento econômico, expansão do emprego, valorização real do salário mínimo e ampliação do acesso ao consumo. A conjuntura internacional favorável às commodities contribuiu para o desempenho econômico, mas decisões internas de política social também tiveram papel relevante.
Entre as medidas associadas a seus governos estão:
- criação e expansão do Bolsa Família;
- implantação do Prouni;
- expansão de universidades e institutos federais;
- criação do Reuni;
- ampliação do crédito;
- valorização real do salário mínimo;
- lançamento do Minha Casa, Minha Vida;
- políticas de segurança alimentar;
- crescimento da presença diplomática brasileira;
- retomada de políticas industriais no terceiro mandato.
Não seria correto atribuir todos os avanços exclusivamente a Lula. Programas anteriores foram incorporados, o Congresso participou da elaboração das leis e fatores internacionais ajudaram a economia. Também seria incorreto negar que seus governos ampliaram políticas públicas que atingiram milhões de brasileiros.
No terceiro mandato, o IBGE registrou que a proporção de brasileiros abaixo da linha de pobreza utilizada pelo instituto caiu de 27,3% em 2023 para 23,1% em 2024. Isso representou aproximadamente 8,6 milhões de pessoas saindo dessa condição. O resultado não pode ser explicado por uma única medida, mas está relacionado ao mercado de trabalho, à renda e aos programas sociais. Os números foram divulgados pelo IBGE.
Na área ambiental, dados do Inpe apontaram redução nos alertas de desmatamento da Amazônia em diferentes períodos do terceiro governo. Entre agosto de 2025 e maio de 2026, a queda indicada pelo sistema Deter foi de 37,5%. Os dados são do Inpe/MCTI.
Esses resultados ajudam a explicar por que Lula mantém uma base eleitoral resistente, especialmente entre eleitores de menor renda e em estados do Nordeste.
Mas surge outra questão: “depois de tantos anos no poder, Lula ainda representa renovação social ou administra programas que já se tornaram parte permanente do Estado brasileiro?”
Mensalão: o escândalo que atingiu o coração do governo
Em 2005, o primeiro governo Lula foi abalado pelo chamado mensalão, esquema envolvendo recursos ilícitos e apoio parlamentar. Integrantes importantes do PT e do governo foram investigados e, posteriormente, condenados pelo Supremo Tribunal Federal na Ação Penal 470.
Entre os condenados estavam figuras muito próximas ao núcleo político do governo, como José Dirceu, então ministro-chefe da Casa Civil, José Genoino e Delúbio Soares.
Lula não foi réu nem condenado na Ação Penal 470. Portanto, não existe base jurídica para dizer que foi considerado culpado pelo mensalão.
A dúvida política, entretanto, permanece legítima: “seria possível que um presidente conhecido por acompanhar pessoalmente as articulações políticas não soubesse de um esquema que envolvia integrantes centrais de seu governo e de seu partido?”
Não saber poderia afastar uma responsabilidade criminal, mas levantaria uma questão sobre capacidade de supervisão. Saber e não agir seria muito mais grave — porém isso não foi comprovado judicialmente contra Lula.
O mensalão expôs uma contradição profunda: o partido que havia construído sua identidade denunciando práticas tradicionais de Brasília passou a ser acusado de utilizar mecanismos semelhantes para manter sua base parlamentar.
Petrobras e Lava Jato: condenação, prisão e anulação
A Operação Lava Jato revelou um amplo esquema de corrupção envolvendo dirigentes da Petrobras, empreiteiras, intermediários e políticos de diferentes partidos. Parte significativa das irregularidades investigadas teria ocorrido durante os governos do PT.
Lula foi acusado, entre outros episódios, de receber vantagens indevidas relacionadas a um apartamento tríplex no Guarujá e a reformas realizadas em um sítio frequentado por sua família em Atibaia.
Em 2017, foi condenado pelo então juiz Sergio Moro no processo do tríplex. A condenação foi confirmada e ampliada pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região. Lula ficou preso por 580 dias e não pôde disputar a eleição presidencial de 2018.
Em 2021, o ministro Edson Fachin determinou a anulação das decisões tomadas pela Justiça Federal de Curitiba nos processos, considerando que aquela vara não tinha competência jurídica para julgá-los. Posteriormente, o plenário do STF confirmou a anulação por oito votos a três. A decisão foi divulgada pelo próprio STF.
Em outro julgamento, o STF reconheceu a parcialidade de Sergio Moro no processo do tríplex.
O resultado jurídico precisa ser explicado com precisão:
- Lula não possui atualmente aquelas condenações;
- seus direitos políticos foram restabelecidos;
- ele deve ser tratado juridicamente como inocente;
- a anulação ocorreu por problemas de competência e de regularidade processual;
- isso não corresponde a uma decisão de mérito afirmando que todos os fatos narrados jamais ocorreram;
- os processos não resultaram em novas condenações válidas;
- no caso do tríplex, o Ministério Público posteriormente reconheceu a prescrição e pediu o arquivamento.
Portanto, duas afirmações comuns são imprecisas:
“Lula continua condenado.”
Falso. As condenações foram anuladas e não têm validade jurídica.
“Lula foi absolvido de tudo porque ficou provado que não cometeu nenhum ato.”
Também é uma simplificação. Em vários casos, não houve novo julgamento definitivo do mérito.
E é justamente nesse espaço entre a inocência jurídica e a ausência de uma conclusão definitiva sobre todos os fatos que permanecem as disputas políticas.
Perseguido ou beneficiado por erros da investigação?
A defesa de Lula sustentou que a Lava Jato foi utilizada para retirá-lo da eleição de 2018. As revelações sobre conversas entre integrantes da força-tarefa e o então juiz Sergio Moro reforçaram questionamentos sobre a imparcialidade da operação. O reconhecimento da parcialidade de Moro pelo STF deu sustentação jurídica a parte dessa narrativa.
Isso não significa automaticamente que todas as provas e suspeitas eram inventadas. Significa que o processo não respeitou plenamente as garantias exigidas de um julgamento imparcial.
A Lava Jato colocou o país diante de duas possibilidades desconfortáveis, que não são necessariamente excludentes:
- havia corrupção real que precisava ser investigada;
- investigadores e magistrados poderiam ter ultrapassado limites legais na tentativa de obter condenações.
Lula tornou-se símbolo das duas interpretações. Para uns, foi vítima de perseguição judicial. Para outros, escapou de responder novamente às acusações devido a erros processuais e à prescrição.
A pergunta mais honesta não é simplesmente “Lula é culpado ou inocente?”, pois juridicamente ele não possui condenação válida. A pergunta fazemos é outra:
Por que um político que afirma ter sido vítima de uma armação não procurou incentivar um novo julgamento célere do mérito, com um juiz reconhecidamente imparcial, para tentar encerrar definitivamente as suspeitas?
A resposta de sua defesa seria previsível: “cabe ao Estado provar a culpa, não ao acusado provar a inocência. Juridicamente, essa resposta está correta. Politicamente, porém, o vazio deixado pela ausência de um desfecho permanece explorável por seus adversários.”
Lula foi acusado no mensalão?
Não. Lula não foi réu na Ação Penal 470 e não foi condenado pelo mensalão. Integrantes relevantes de seu partido e governo, contudo, foram condenados.
Lula foi absolvido na Lava Jato?
A formulação mais precisa é: as condenações foram anuladas e Lula recuperou a condição jurídica de inocente. A anulação não foi uma absolvição de mérito sobre todos os fatos.
O tríplex e o sítio eram de Lula?
Formalmente, os imóveis não estavam registrados em seu nome. As acusações sustentavam que reformas e disponibilidade dos bens representariam vantagens indevidas. A defesa negou que Lula fosse proprietário ou beneficiário de propina. Como as condenações foram anuladas e não houve novo julgamento definitivo, não existe atualmente uma conclusão penal válida que permita apresentar essa acusação como fato comprovado.
As investigações atingiram apenas Lula e o PT?
Não. A Lava Jato alcançou empresários, operadores e políticos de diferentes partidos. Entretanto, a força-tarefa de Curitiba concentrou grande atenção em Lula, no PT e em contratos da Petrobras ocorridos durante os governos petistas. Esse foco alimentou tanto a narrativa de combate à corrupção quanto a acusação de atuação política seletiva.
O terceiro mandato: avanços sociais e dificuldades fiscais
O governo iniciado em 2023 retomou programas sociais, lançou o novo Minha Casa, Minha Vida, criou o Pé-de-Meia, apresentou a Nova Indústria Brasil e participou da aprovação da reforma tributária sobre o consumo.
Ao mesmo tempo, enfrenta críticas sobre:
- crescimento das despesas;
- dificuldade para cumprir as metas fiscais;
- aumento e criação de cobranças tributárias;
- gastos com viagens e funcionamento da Presidência;
- falta de transparência em determinadas despesas;
- dificuldades de articulação com o Congresso;
- dependência de partidos do chamado Centrão;
- comunicação pouco eficiente;
- declarações controversas de Lula;
- proximidade diplomática com governos autoritários.
O TCU aprovou as contas presidenciais de 2023, 2024 e 2025 com ressalvas, o que significa que não foram rejeitadas, mas apresentaram problemas ou impropriedades que mereceram registro e recomendações. O parecer de 2023 foi unânime, e o tribunal também aprovou com ressalvas as contas de 2024.
Em maio de 2026, o Governo Central registrou déficit primário mensal de R$ 53,3 bilhões, diante de R$ 40,2 bilhões no mesmo mês de 2025. Um resultado mensal isolado não resume toda a política fiscal, mas reforça a pressão sobre as contas públicas. O dado é do Tesouro Nacional.
A questão central é: “o governo conseguirá sustentar políticas sociais e investimentos sem transferir uma conta fiscal excessiva para os próximos anos?”
Alianças: governabilidade ou incoerência?
Lula chegou ao terceiro mandato acompanhado de Geraldo Alckmin, antigo adversário do PT e candidato presidencial do PSDB em 2006. A aliança foi apresentada como uma frente em defesa da democracia.
Seus apoiadores enxergam capacidade de diálogo e formação de consensos. Seus críticos veem oportunismo: adversários históricos tornam-se aliados quando a conveniência eleitoral exige.
Ao longo dos anos, Lula também se aproximou de lideranças e partidos que o PT anteriormente associava às práticas tradicionais de Brasília. Essa estratégia ampliou sua governabilidade, mas enfraqueceu o discurso de transformação do sistema político.
Se todos podem ser aliados dependendo da circunstância, quais princípios são realmente inegociáveis?
Relações internacionais e governos autoritários
Lula procura apresentar o Brasil como um país independente das grandes potências. Defende diálogo com Estados Unidos, China, Rússia, União Europeia e países do Sul Global.
Essa política pode aumentar a influência diplomática brasileira. Contudo, Lula frequentemente é criticado por adotar um tom cauteloso com governos acusados de violações democráticas, particularmente aliados ideológicos da esquerda latino-americana.
O problema não é manter relações diplomáticas. Países negociam até com governos dos quais discordam. O questionamento surge quando a defesa da democracia parece mais firme diante de adversários políticos do que diante de aliados.
A defesa da democracia proclamada por Lula é um princípio universal ou uma ferramenta aplicada com intensidade diferente conforme o parceiro político?
Aprovação, desaprovação e rejeição eleitoral
É importante não misturar três indicadores diferentes:
| Indicador | Resultado da Genial/Quaest de agosto de 2026 |
|---|---|
| Aprova o trabalho de Lula | 48% |
| Desaprova o trabalho de Lula | 47% |
| Governo positivo | 36% |
| Governo regular | 26% |
| Governo negativo | 36% |
| Não votaria em Lula | 52% |
| Lula no primeiro turno | 39% |
| Lula contra Flávio Bolsonaro no segundo turno | 44% a 39% |
A pesquisa ouviu presencialmente 2.004 eleitores entre 31 de julho e 3 de agosto. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com confiança de 95%, e o registro no TSE é BR-06591/2026. Os resultados e a metodologia foram publicados pela Folha.
O quadro apresenta uma aparente contradição: Lula lidera a eleição, mas 52% dizem que não votariam nele. Isso é possível porque seus adversários também possuem rejeição elevada. Flávio Bolsonaro, por exemplo, aparecia com 54% de rejeição na mesma pesquisa.
Outra pesquisa, Nexus/BTG, mostrou uma disputa ainda mais apertada: Lula com 46% e Flávio com 45% em eventual segundo turno. Foram entrevistadas 2.002 pessoas entre 31 de julho e 2 de agosto, com margem de erro de dois pontos. Os números foram publicados pela Reuters.
As diferenças entre os levantamentos não significam necessariamente que um deles esteja errado. Institutos usam métodos, questionários e modelos de amostragem distintos.
O retrato mais seguro é este: “Lula continua competitivo e lidera diferentes levantamentos, mas enfrenta rejeição elevada e uma eleição menos confortável do que seus apoiadores desejariam admitir.”
O que Lula promete para um quarto mandato
Até a verificação feita para este dossiê, as diretrizes partidárias estavam mais claras do que um programa definitivo e detalhado de governo.
Na convenção, Lula indicou como prioridades:
- aprofundar investimentos públicos e privados;
- fortalecer a indústria brasileira;
- investir em inteligência artificial e novas tecnologias;
- manter controle nacional sobre terras raras e minerais estratégicos;
- ampliar políticas educacionais e sociais;
- continuar programas habitacionais;
- proteger a Amazônia;
- demarcar terras indígenas;
- regularizar territórios quilombolas;
- defender a soberania nacional;
- ampliar investimentos em defesa;
- reduzir desigualdades.
O discurso sobre terras raras recebeu destaque. Lula defendeu que o Brasil não permaneça apenas como exportador de matéria-prima, mas desenvolva tecnologia para transformar seus próprios minerais estratégicos. As diretrizes foram divulgadas pelo PT.
As propostas são politicamente atraentes, mas ainda exigem respostas concretas:
- Quanto custarão?
- Quais serão as fontes de financiamento?
- Como serão conciliadas com as metas fiscais?
- Quais dependem do Congresso?
- Quais possuem cronograma e indicadores verificáveis?
- O que será realmente novo em relação ao terceiro mandato?
Sem essas respostas, diretrizes permanecem intenções, não compromissos mensuráveis.
O maior ativo e o maior problema de Lula
O maior ativo de Lula é sua própria história. Poucos candidatos conseguem estabelecer uma ligação emocional tão intensa com parcelas expressivas da população. Para milhões de brasileiros, ele representa um período de melhora de vida, emprego, consumo e reconhecimento social.
Seu maior problema também é sua história.
Lula não pode apresentar-se como um desconhecido que precisa apenas de uma oportunidade. Já governou por três mandatos. Seus aliados ocuparam posições centrais no Estado. Seus governos tiveram realizações importantes, mas também foram atravessados por escândalos, alianças controversas e problemas fiscais.
Depois de tantas décadas no centro do poder, atribuir todos os problemas aos adversários se torna menos convincente.
As perguntas que Lula ainda precisa responder
- Como tantos integrantes importantes de seu partido e de seus governos participaram de esquemas ilícitos sem que ele percebesse?
- Se não sabia, houve falha grave de comando e fiscalização?
- Por que o PT, fundado para combater as práticas tradicionais de Brasília, passou a depender das mesmas alianças que condenava?
- Como financiar um novo ciclo de programas sociais e industriais sem comprometer as contas públicas?
- Por que despesas presidenciais e gastos classificados como sigilosos continuam provocando questionamentos sobre transparência?
- A defesa da democracia vale com a mesma intensidade para governos aliados e adversários?
- Qual é o plano sucessório de um movimento político tão dependente de uma liderança que completará 81 anos durante o próximo mandato?
- Um eventual quarto governo representaria continuidade necessária ou dificuldade de renovação do próprio campo político?
Veredito
Lula não pode ser honestamente reduzido nem a “maior líder popular da história brasileira” nem a “chefe comprovado de todos os esquemas de corrupção atribuídos ao PT”.
A primeira descrição ignora fracassos, contradições e responsabilidades políticas. A segunda transforma suspeitas e interpretações em condenações que atualmente não existem.
Seu legado social é real. Os escândalos ocorridos ao redor de seus governos também são reais. Suas condenações existiram, mas foram anuladas. Sua inocência jurídica precisa ser respeitada, embora a ausência de um julgamento final de mérito sobre todas as acusações mantenha dúvidas políticas vivas.
Lula chega a 2026 liderando pesquisas, mas sem a tranquilidade eleitoral de outros momentos. A população parece dividida entre a memória dos avanços sociais, o receio do retorno de seus adversários e a desconfiança acumulada depois de mais de quatro décadas de protagonismo.
No fim, talvez a principal pergunta não seja se Lula fez bem ou mal ao Brasil. Uma trajetória tão longa contém os dois elementos. A pergunta decisiva é:
Depois de três governos, Lula ainda tem respostas novas para o país — ou sua maior promessa continua sendo a lembrança do que já fez?


